‘Vereadora da Cracolândia, já imaginou?’, diz ex-usuária

Há 58 anos, a polícia abriu fogo contra uma manifestação em Joanesburgo, África do Sul, matando pelo menos 50 pessoas e deixando quase duzentos feridos. A reivindicação era que negros pudessem circular livremente por toda a cidade, como só brancos podiam. Aquele 21 de março entrou para história como o Dia Internacional para Eliminação da Discriminação Racial, instituído pela ONU. Hoje, na área central de São Paulo, o lugar onde 67% das pessoas se declaram negras ou pardas está sitiado pela polícia. Para saber como é viver ali, conversamos com Janaína Xavier (36), moradora da vizinhança há dez anos, ex-usuária de drogas e ativista pelos direitos de pessoas em situação de rua. Seu sonho é entrar na política, mesmo com medo de sofrer como Marielle Franco, vereadora assassinada no Rio de Janeiro.

Por Felipe Villela

“Algumas pessoas me falam assim: ‘Ô, Jana, você saiu das drogas, você é uma liderança forte aqui, por que você não se candidata pra ajudar a gente?’ Mas como? Eu não tenho estudo! Mas eu gostei da ideia, eu gosto de trabalhar com a população. Estou querendo abrir uma associação, mas pra isso eu preciso de ajuda. E essa ajuda tinha que vir do governo.

Eu acho que o governante, pra fazer o que faz aqui na Cracolândia, é porque não teve um familiar na droga, não teve um amigo envolvido no crime. O que importa é carinho, abraço, porque as vezes você bebe, você cheira pra tirar aquela tristeza, aquela coisa ruim que você tá passando. Se não tiver um apoio, como que a pessoa sai? Um dia eu também não tinha nada e teve gente que apostou em mim.

Eu fico vendo o jeito como os usuários são tratados, o preconceito. A sociedade vê eles como bicho, não vê eles como ser humano. Aí vem aquela revolta e a vontade é ir pra cima da polícia. Chega uma hora assim que a gente não aguenta mais, mas a gente tem que pensar duas vezes antes de fazer uma besteira. Porque a gente tem filhos, a gente mora aqui na área, e a gente corre o risco de ser forjada e ser presa sem dever nada. Eu já não gosto nem de ficar perto porque me dói, me mata um pouco. Os policiais podem fazer o trabalho deles, mas não desta forma. Nem cachorro merece ser tratado do jeito que eles tratam usuário.

Violência
Uma vez deixaram a minha filha pelada no meio da rua pra ver se ela tava com droga. Mas eu digo pra ela, ‘me chama porque eu vou falar com eles, porque você é usuária mas tem mãe’. E não é só ela, são várias pessoas que chegam perto de mim reclamando. ‘Olha, Jana, nós tá sendo agredido’. Outro dia um usuário queria que fizéssemos um abaixo-assinado pra parar com a violência contra eles. Mas como eu vou fazer sozinha, lutar sozinha? Não tem como eu defender eles sozinha.

Ultimamente piorou a situação, porque, para os inspetores novos, é tudo na ignorância, no palavrão. Até os moradores sofrem agressão, como se todo mundo que morasse aqui fizesse algo de errado. Minhas filhas, quando escutam uma bomba dentro de casa, elas tremem, morrem de medo.

Outro dia eu tava filmando um rapaz sendo agredido, e um GCM [Guarda Civil Metropolitana] veio e falou: ‘Encosta’. Eu falei que não ia encostar. Ele chamou a policial feminina. Ela veio, me pegou pelo cabelo e me colocou de cara pra parede. Eu dei uma cotovelada nela e ela veio pra cima de mim. E eu estava apenas filmando uma abordagem indevida. Aí tava passando outro carro da GCM com um que me conhecia e parou. Disse pra eu ficar calma que eles só iam conferir meus documentos. A coisa mudou na hora em que ela encontrou no meu celular uma foto minha com o [Eduardo] Suplicy. Aí me perguntaram: ‘A senhora é repórter?’ ‘Não, mas eu conheço muita gente’. ‘A senhora trabalha com o vereador Suplicy [PT]?’ ‘Não, mas ele é um grande amigo meu’. Aí eles me dispensaram rápido. Isso tem mexido muito comigo.

Eu tava pensando outro dia, tanto predinho aí que vai ser jogado no chão, por que não faz um alojamento? Coloca uma equipe de pulso firme para não entrar sujeira. Os moradores mesmo ficam responsáveis pela limpeza, por cuidar do dormitório. Eu sei que precisa de muita gente, que é difícil, mas não é impossível. Os usuários falam muito disso, de moradia. Moradia, amor, carinho, uma porta de emprego. Uma oportunidade para a sociedade ver eles de forma diferente. Não só usuário, mas traficante também. Porque muitos estão ali porque não conseguiram achar emprego. As vezes eles dizem que estão cansados dessa vida, querem outra coisa. Por isso, eu quero criar uma associação.

Se eu fosse vereadora, batia na questão da moradia deles. Ter um lugarzinho, mesmo que ele esteja usando a droga dele, mas pelo menos reduzir a quantidade, se aproximar da família.

Eu mesma saí do galpão na Al. Dino Bueno naquele projeto do [Fernando] Haddad (PT), De Braços Abertos, e fomos morar na pensão azul ali da esquina [R. Helvetia com Al. Barão de Piracicaba], em 2014. No começo eu tentei me adaptar ao trabalho, mas não tinha com quem deixar o meu filho, porque ele fica na escola meio período. Ele depende totalmente de mim, é autista e tem cinco anos. Meu marido trabalha até hoje no Braços Abertos. Ele está na jardinagem agora, mas começou na varrição. Semana que vem é a festinha do encerramento do programa e ele vai ficar sem emprego, porque o prefeito [João] Doria (PSDB) acabou com o projeto. Aí a gente não sabe como vai fazer, porque o dinheiro que ele ganha lá e o bico que ele faz é que seguram o aluguel.

A quantidade de família que arrumou um emprego no Braços Abertos, que saiu da rua, saiu do tráfico… Eles vão voltar pra rua. Tem gente que já tá aqui de novo. Um casal que morava num hotel que foi fechado, por exemplo, eles já estão traficando no fluxo [como se chama a concentração de pessoas comprando, vendendo e fumando crack na rua].

Droga
Quando eu era usuária de cocaína, ficava assim três, quatro dias virada na rua, aí chegava um momento que o corpo não aguentava mais, tinha que descansar. Aí eu ia pra casa, comia, tomava banho. Quando a gente fica na rua sem tomar banho, as pessoas olham diferente. Até minha mãe já afastava meus filhos de mim.

É meio complicado falar do meu passado. Eu passei muita dificuldade, porque todo dinheiro que a gente tinha ia pra droga. A gente só conseguia pagar o aluguel com ajuda do pessoal da igreja. Ninguém mais apostava na gente. Eu só escutava: ‘Ah, vai morrer nessa vida’.

Nunca cheguei a passar fome na rua, mas já fiquei alguns dias sem casa. Quando cheguei em São Paulo com o meu terceiro filho, depois de passar um tempo no Rio de Janeiro, minha mãe morava na Ocupação Prestes Maia, mas a coordenação falou que nós éramos traficantes, então a gente não podia entrar lá. Dormi na praça até arrumar um quartinho na Bela Vista.

Eu nasci em Minas Gerais e fui criada no interior do Rio de Janeiro. Minha mãe veio pra São Paulo pra trabalhar e eu fiquei com meu pai e minhas irmãs, mas eles não cuidavam de mim direito. Como minha mãe estava pra um canto e minha família pra outro, acabei ficando sozinha. Aí minha mãe me buscou. Ela era catadora de latinha e papelão. Eu cheguei aqui com 14 anos e grávida da minha filha mais velha, que hoje tá aí no fluxo. Quando saí de lá ninguém sabia que eu tava grávida, eu não sabia o que era gravidez.

Quando ficamos com dificuldade de pagar aluguel, a gente foi morar numa ocupação. Vivemos lá por muito tempo, até minha mãe conquistar um apartamento em Cidade Tiradentes. Ela se mudou pra lá e eu fui viver a minha vida. Hoje, tenho oito filhos, de cinco pais diferentes. Dois pais foram assassinados e com dois eu não tenho mais contato.

Conheci o meu marido na Av. Rio Branco. A gente ficou junto, eu engravidei. Como ele também era usuário de droga, tivemos uma briga lá na Ocupação Mauá e a coordenação pediu pra gente se retirar. Nossa, era muito briga dentro de casa, polícia na porta, ele me agredindo e eu querendo ir pra droga. Várias vezes eu roubei coisas dele. Relógio, telefone, essas coisas, pra poder obter a droga e a bebida. Ele ainda é meu marido, temos quatro filhos. Depois de sair da ocupação, a gente foi morar num hotel na Santa Cecilia. Como lá eu ficava muito presa, minha mãe veio ver um quartinho aqui perto, lá no galpão. Foi quando eu conheci a famosa Cracolândia, há dez anos. Com a droga eu parei há sete anos.

Racismo
Às vezes, quando eu brigo com o meu esposo, ele fala assim: ‘Ah, porque eu sou africano você briga comigo. Se eu fosse brasileiro você não brigaria, porque o brasileiro já mata’. Ele não fala com as pessoas, ele fica fechado, porque ele tem medo do preconceito. Ele é de Joanesburgo [África do Sul] e sente que tem muito racismo aqui. Metade dos amigos dele, que também vieram da África, estão no fluxo. Tem uns que são formados, que vieram tentar trabalhar aqui. Não conseguiram emprego, não conseguiram documentação e acabaram caindo na droga. Pessoal ali me chama de ‘cunhada’, apesar da gente nem ser parente.

Eu também sinto o preconceito. Há duas semanas aconteceu uma coisa comigo. Eu fui nas Casas Bahia tirar uma máquina de lavar. O vendedor fez a ficha, mas quando chegou lá no crediário a moça não quis aceitar. Ela começou a pedir número de telefone e nome de pessoas que eu conhecia. Ela queria saber de onde vem o meu dinheiro. Ela era clara. Eu falei assim: ‘Olha, a senhora não sabe com quem você tá mexendo. Eu tô simples, tô de chinelo, mas isto daí é preconceito’. Ela falou palavras que na hora eu não chorei por vergonha, porque tava muito cheio, minhas filhas estavam junto. Eu fiquei do meio dia até às quatro da tarde só pra tentar aprovar meu crediário. Eu saí de cabeça baixa, porque não fui aprovada. Sendo que meu guarda-roupa, meu fogão, tudo eu comprei lá. Mas no dia seguinte, um vendedor me ligou e disse que tinha falado com o gerente e que eu tinha sido aprovada. ‘A senhora ainda tem interesse pela máquina?’ Aí fui eu e minha filha lá tirar a máquina. Essa semana eu fui lá de novo e tirei um jogo de armário de cozinha.

Garra
Outro dia eu tava no mercado e vi uma senhora que pediu uma gordura pra fritar, e o menino deu também um bife pra ela. Quando ela tava saindo, o segurança pediu pra ver a sacola e tirou o bife. Meu dinheiro não deu pra pagar a mistura dela, e aquilo me doeu. Ela vivia na rua com certeza, queria alimentar alguém, talvez os filhos.

Tem também um menino aqui embaixo que ele rouba, sabe? Um dia eu vi ele apanhando de um monte de gente, e isso doeu meu coração. Meu coração grita muito pra ajudar este rapaz, pra ele sair dessa vida. Mas como que a gente faz se a gente não tem condições?

As pessoas dizem que eu falo muito de bondade, mas é porque eu tenho o sonho de ajudar quem vive na rua. Eu tenho vontade de dar tudo o que este povo precisa, roupa, sapato. E eu tenho aquela garra de ir pra cima, brigar.

Quando eu tava na ocupação e tinha protesto, a líder me colocava pra gritar, porque eu grito forte. Os policiais achavam que eu era liderança, mas eu era pequeninha. Então, num protesto, eu tô ali lutando mas sempre de olhos abertos, porque eu tenho medo de levar um tiro. Agora, vai que eu viro vereadora aqui da Cracolândia, já imaginou o que que as pessoas vão pensar? Vai mexer com muitos policiais que não gostam de mim, e também pode incomodar o pessoal da parte do crime, porque vai mexer com os usuários. Eu tenho medo de acontecer comigo o que aconteceu com aquela vereadora lá do Rio [Marielle Franco], porque a minha voz é como a dela, incomoda.”

PPP do novo Hospital Pérola Byington vai deixar centenas de pessoas sem teto

Cinco moradoras de pensão que pode ser demolida para construção do novo hospital de referência em saúde das mulheres foram à Promotoria de Habitação e Urbanismo, no Ministério Público, na sexta-feira (10/11). Elas procuram informações sobre o projeto que ronda suas casas desde 2013, e também ajuda para não terminarem na rua.

Uma das moradoras, Silvana, tem sentido fortes dores de cabeça todos os dias desde que ouviu dizer que o despejo estaria próximo. Ela vive há 10 anos na mesma pensão, no Largo Coração de Jesus, em Campos Elíseos. Todos os 19 “quartos” do pequeno prédio estão ocupados, com uma média de três pessoas por cômodo e um total de cinco crianças. O último aluguel que pagou foi em novembro de 2016, quando o responsável pela cobrança sumiu. Agora, chegam cobranças de IPTU que se acumulam e estão com medo de cortarem luz e água. Ela sabe pouco sobre o projeto para o terreno onde mora. Lembra apenas que por volta de 2013 homens de calça e camisa social entraram na sua casa, tiraram fotos e fizeram perguntas do tipo “quantas pessoas vivem aqui”, “quanto você ganha”. Não anotaram nada, foram embora e nunca mais ouviu falar deles. Depois, tudo o que soube sobre o projeto foi fofoca. Acha que o imóvel foi vendido pelo proprietário ao governo do estado em março de 2016. Mesmo assim, o responsável pela cobrança dos aluguéis, que não era o dono do imóvel mas possivelmente o locatário oficial, continuou cobrando aluguel dos moradores até o fim daquele ano. Como o maior proprietário da quadra, uma empresa que representa fabricantes internacionais de pneus, vai tirar os equipamentos e esvaziar o lote na próxima sexta-feira (17/11), Silvana teme que os caminhões também parem na sua porta para levar tudo o que ela tem.

Os vizinhos de Silvana também estão muito preocupados. Fernando, por exemplo, dono de um bar no mesmo imóvel onde mora com toda a família desde que chegou de Portugal, ainda criança, em 1959, recebeu um documento do Tribunal de Justiça do Estado determinando prazo de 30 dias para “desocupação voluntária”. Ele diz que até seria possível procurar um hotel ou pensão, caso vivesse só, mas “com criança é diferente”. Hoje, são mais de 20 pessoas dividindo o mesmo teto: irmãs, filhos, netos e sobrinhos de Fernando que nunca viveram separados. Um suposto oficial de justiça bateu na sua porta com um mandado de “imissão na posse” exatamente dois meses depois da última grande operação policial para acabar com a chamada “Cracolândia”, que aconteceu em maio.

O documento indica que seu imóvel foi desapropriado por “utilidade pública” e que o valor do bem determinado pela Fazenda do Estado está depositado em juízo. Ele diz que este dinheiro não é suficiente para resolver a moradia da família inteira e que para comprar outra coisa é preciso ter dinheiro na mão e não depositado numa conta inacessível. “Agora é assim, o que é nosso não é nosso. Tem que sair sem querer, tem que aceitar o dinheiro que eles [o governo] pagarem”.

Imissão na posse é o processo pelo qual o governo do Estado pretende se apropriar efetivamente dos imóveis de toda a chamada quadra 36 para demoli-los e depois construir, em esquema de parceria-público privada (PPP), a nova sede do Hospital Pérola Byington.

Medo

O decreto de utilidade pública de sua casa foi emitido pelo governador em 2013 (nº 59.217 de 21 de maio). A primeira vez que Fernando ouviu falar desta ameaça foi há dois anos, depois mais nada. Agora está bastante preocupado. “Diz que chega um caminhão, encosta e começa a tirar tudo. Acho que isso é uma crueldade muito grande, chegar e tirar as coisas assim e botar as pessoas na rua. A gente fica de mãos atadas. 30 dias não dá nem pra encontrar uma casa”.

Além de Fernando e Silvana, todos os pequenos proprietários, ocupantes e inquilinos do quarteirão receberam documentos parecidos.

Um pouco mais perto da esquina é o bar do Seu José que está na mira dos tratores. Ele está nesta quadra há apenas sete meses. Antes, seu bar ficava ali perto, na Al. Dino Bueno, até ser emparedado pela prefeitura junto com todos os comércios e quase todas as pensões nas imediações depois da operação policial contra a “Cracolândia”. “Agora vou viver como passarinho, de galho em galho?”, comenta no balcão do novo endereço.

Encontramos mais moradores apreensivos na Al. Glete. Renata, que mora ali há seis anos, se surpreendeu com a ordem para abandonar sua casa junto com os oito filhos e todos os vizinhos que ocupam os nove cômodos de um edifício antes abandonado. “Eu achava que ia ser um pouco mais pra frente, mas, infelizmente, parece que veio atingindo todo mundo, né”. O documento recebido por ela, no entanto, não determina um prazo para desocupação do imóvel.

Até quem não recebeu os documentos está preocupado. É o caso de Cássia, que vive com filhos e marido num barraco dentro de um antigo galpão ocupado, na Av. Rio Branco, por ex-moradores da Favela do Moinho. Tudo que é novo ali é feito de tapume, tábuas e ripas de madeira, e o pé-direito é tão alto que só tem teto individual quem cedeu o espaço sobre seu barraco para outra família. Quando isto acontece, tábuas de madeira fazem o piso e uma escada simples no corredor permite acesso independente ao que poderia ser considerado um mezanino. Este ainda não é caso de Cássia – deitada em sua cama ela vê as telhas de barro e o madeiramento do telhado do sobrado, ainda chamuscado pelo último incêndio. No prédio vivem hoje 77 famílias. Apesar de não terem recebido nenhuma notificação oficial, foram ao batalhão policial mais próximo para se certificar de que não existe reintegração agendada. O inquilino do bar que ocupa o térreo do prédio foi ao Fórum e também não encontrou nada.

Incerteza

Até agora, nenhuma informação ou alternativa foi apresentada oficialmente aos moradores da quadra, mesmo os que já foram notificados com documentos de imissão na posse. Se os caminhões de despejo encostarem mesmo neste mês, onde vão estudar as crianças que já estão matriculadas nos colégios do entorno? O prazo para novas matrículas na rede pública termina em dezembro.

Alguns moradores de pensões também se inscreveram na PPP Habitacional que o governo do estado já começou a construir a poucos metros dali, apesar de não terem chances de mudar para os novos prédios. Para morar lá é preciso ter renda familiar superior a três salários mínimos, o que não é o caso de grande parte das famílias ameaçadas pela PPP do novo hospital.

Mesmo sem dinheiro para comprar um apartamento na PPP Habitacional ou para alugar algo com condições dignas na vizinhança, os moradores no caminho do novo hospital tem direito à moradia. O lugar onde vivem hoje está marcado no Plano Diretor e na lei de uso e ocupação do solo do município como ZEIS 3 (Zona Especial de Interesse Social em áreas com boa infraestrutura, escolas e oportunidades de emprego). Isto significa que aquela é uma área especialmente destinada à produção de moradias para que pessoas de baixa renda possam viver com dignidade. Além disso, qualquer intervenção na área precisa ser precedida pela constituição de um conselho gestor com a participação de moradores, proprietários e comerciantes, além de representantes do poder público. Este conselho seria, justamente, o espaço onde Silvana, Fernando, Seu José e Renata poderiam debater de forma direta, consensuada, livre e bem informada sobre o destino de suas casas e de suas vidas. Ainda assim, o governo do estado parece desconsiderar que o lugar onde pretende construir um grande hospital é habitado por centenas de pessoas que nunca foram informadas sobre planos, prazos de execução e alternativas de moradia para quem vive ali de forma precária.

Ilegalidades

Basta atravessar a rua para ver uma história um pouco diferente. As quadras 36 (do hospital), 37 e 38 fazem parte da mesma ZEIS. No entanto, em julho foi eleito um conselho gestor restrito apenas as últimas duas quadras. A intenção de prefeitura é desapropriar os imóveis, demolir todas as construções que não forem consideradas patrimônio histórico e entregar os terrenos para o governo do estado construir prédios habitacionais. O Conselho Gestor das quadras 37 e 38 foi constituído por exigência do Ministério Público após uma ação desastrada e violenta por parte da prefeitura, que feriu pelo menos três pessoas dentro de seus quartos numa pensão enquanto demolia o imóvel vizinho. Agora, antes de qualquer nova demolição ou remoção na região da “Cracolândia”, moradores e conselheiros discutem como será a transformação da área e como será o atendimento habitacional das famílias que vivem ali.

Por que o governo do estado e a prefeitura se recusam a fazer um conselho gestor com os atingidos pelo novo hospital como fizeram com seus vizinhos nas quadras 37 e 38? Esta pergunta ainda está sem resposta.

Uma opção seria constituir um único conselho gestor de toda a ZEIS, para que todos os moradores pudessem participar da discussão sobre o destino do seu bairro. Conselheiros tem insistido nisto desde o início. O Ministério Público também já protocolou Ação Civil Pública neste sentido. A prefeitura, mesmo assim, se recusa a ampliar o conselho gestor de Campos Elíseos, e agora vemos o efeito na vida dos moradores. Inclusive de mulheres como Silvana que, ironicamente, já sofre com enxaquecas pelo medo de perder sua casa para a construção de um hospital público referência em cuidados com a saúde da mulher.

 

Atividade de mapeamento coletivo reúne informações para plano alternativo da Luz e de Campos Elíseos

Participantes adicionam adesivos no mapa que representa parte de Campos Elíseos, Santa Efigênia, Luz e Bom Retiro.

O Observatório de Remoções promoveu no dia 16 de outubro uma atividade para reflexão coletiva sobre as disputas em torno do destino da região central da cidade de São Paulo, em especial do território que compreende Luz e Campos Elíseos. Tal atividade  faz parte das ações promovidas por uma articulação ampla que envolve pesquisadores, ativistas e moradores da região, o Fórum Aberto Mundaréu da Luz.

Um dos objetivos do Fórum Aberto é estabelecer um processo coletivo de planejamento insurgente, termo cunhado pela pesquisadora Faranak Miraftab para se contrapor à práticas tradicionais de planejamento urbano. Resumidamente, a perspectiva insurgente defende  transformações radicais na mediação e participação no processo de planejamento: a mediação passa para uma linguagem próxima a população, saindo do domínio técnico; e a participação é ampliada, além do diálogo, para as práticas sociais e ações insurgentes já em curso no território.

A primeira parte da atividade foi uma conversa com a professora Beatriz Kara José, que ao longo de sua apresentação traçou a trajetória das intervenções estatais no território desde os anos 1970. Sua fala evidencia que não é de hoje que grandes projetos de transformação do centro da cidade de São Paulo se apoiam nas supostas degradação e esvaziamento da região, uma narrativa que justificou planos e intervenções nas últimas décadas que ao invés de resolver problemas reais da região, aprofundaram o descaso com a população pobre que vive, trabalha e circula por lá. Para ouvir a fala completa acesse o link.

A professora de planejamento urbano Beatriz Kara José fala sobre projetos de intervenção na área central nas últimas décadas.

Depois disso, começamos a proposta do mapeamento coletivo, onde o objetivo principal foi reconhecer as práticas sociais transformadoras em curso no território. A facilitação dessa atividade ficou por conta do pesquisador Aluízio Marino, que integra a equipe do Observatório de Remoções. Os dispositivos/suportes escolhidos para a atividade foram: (1) um mapa de grande dimensão impresso em lona, onde as pessoas interviram com iconografias em papel adesivo e canetas permanentes; (2) uma linha do tempo sobre as disputas e intervenções que ocorreram no território desde a década de 1990; e (3) um painel para identificação das práticas sociais transformadoras (resistências, ativismos, insurgências, entre outras ações ) e das agendas/lutas amplas nas quais essas práticas estão inseridas ou conectadas.

Linha do tempo

O processo participativo e os resultados visuais trouxeram a tona elementos importantes para compreender as dinâmicas territoriais existentes hoje e para construir propostas para melhorar as condições de vida daqueles ali que moram, trabalham e circulam. Dentre eles destacamos:

a) A evidente percepção de que esse é um território ocupado, onde existe vida. Sem negar a necessidade de transformações e melhorias, compreende-se a necessidade de que qualquer mudança seja pensada a partir da perspectiva daqueles que ali vivem.

b) O descontentamento com os espaços de participação institucional, tais como os conselhos gestores, que embora tenham sua importância não são suficientes para traduzir as demandas sociais em políticas públicas – inclusive havia a participação de alguns membros do Conselho Gestor de Campos Elíseos. Uma das contribuições defende a “ampliação de canais de participação com a população moradora do centro como obrigatoriedade para implementação das políticas na região”, outra sugere “cartografias, rádios, lambes, aulas públicas para diálogo com o morador e a cidade”.

c) O histórico de ação do poder público no processo de “revitalização”, que fica evidente quando analisamos a linha do tempo. Ao longo das últimas décadas, as intervenções empregadas para alterar o território foram, majoritariamente: demolições e lacramento de imóveis, operações policiais, projetos urbanísticos, construção de equipamentos culturais âncora e realização de eventos.

d) A relação direta entre intervenções do poder público (principalmente nas esferas municipal e estadual), do mercado imobiliário e grandes empresas de outros setores no processo de revitalização. Visível, por exemplo, nas recentes parcerias público-privadas (Casa Paulista) e nos investimentos e intervenções realizadas pela Porto Seguro, entre eles o “Fórum Revitalização do Centro”, evento realizado em parceria com o jornal Folha de São Paulo no SESC 24 de maio. Também foi rejeitado o favorecimento de grandes construtoras e pediu-se clareza na linguagem das políticas públicas.

e) Compreender as ações sociais inseridas no contexto das resistências, ativismos e insurgências como práticas sociais transformadoras foi um pressuposto no processo de mapeamento, já que se coloca como parte do processo de construção de um planejamento insurgente. No painel para identificação dessas práticas ficou evidente a presença de diferentes coletivos que já estão, através de sua ação, transformando o território. É possível vislumbrar (e potenciar) uma articulação entre eles? As participações ao longo da atividade bem como o processo de consolidação do Fórum Aberto Mundaréu da Luz mostram que existe diálogo e colaboração em ações no campo da redução de danos no uso de drogas, intervenções artístico culturais, luta por moradia, educação e comunicação popular. Tal colaboração pode configurar uma alternativa de mediação no território, um dos elementos principais para a construção de um planejamento insurgente.

Texto: Aluízio Marino

Fotos: Paulo Brazyl

Mutirão de desenho revela como moradores enxergam Campos Elíseos

No pedaço de Campos Elíseos hoje conhecido como “cracolândia” tem muita coisa boa e gente que não quer sair dali. Este foi o recado dos moradores e comerciantes que participaram do Mutirão Desenhos & Desejos, que aconteceu no Largo Coração de Jesus no sábado (21/10). “Vivo bem. Tenho tudo, vou a pé!” “Eu vejo o bairro alegre e divertido e, às vezes, muita guerra.” “Cheio de vida dia e noite. Só precisa de cuidados.” “Que nossos filhos possam crescer aqui.” “Mexer nos prédios velhos: dar uso!” Estas foram algumas das respostas que rechearam o Mural de Vivências que propôs três perguntas simples: Como você vive o bairro? Como você vê o bairro? O que você deseja para o bairro?

A iniciativa, promovida pelo Observatório de Remoções, Instituto Pólis, escritório modelo Mosaico da FAU Mackenzie e IABsp com o Fórum Aberto Mundaréu Luz, juntou moradores, comerciantes e freqüentadores do bairro com artistas e arquitetos para registrar algumas cenas da vida cotidiana, prédios históricos e lugares especiais num só desenho coletivo. Papéis e canetas foram distribuídos para adultos e crianças, que desenharam ao mesmo tempo em que contaram algo de suas trajetórias pessoais.

O movimento provocado pelo desenho na rua abriu portas para conversas na calçada e dentro das moradias. Assim, a vida privada dos moradores das pensões e dos trabalhadores do comércio foi atravessando esta atividade coletiva, que foi pensada como um dispositivo para refletir sobre o presente e sobre transformações possíveis. Uma ação conjunta entre quem vive no bairro e quem deseja contribuir para sua melhoria.

Desenhão coletivo

E amanhã (28/10) é dia do primeiro grande encontro do Fórum Aberto Mundaréu da Luz! Promovido por pessoas e organizações no fluxo vivo da região central, como as já citadas e mais Repep (Rede Paulista de Educação Patrimonial), Centro de Convivência É de Lei, A Craco Resiste, Casa Rodante, Creative Commes, A Próxima Companhia de Teatro, entre outros grupos. É mais uma oportunidade para compartilhar visões e saberes sobre o presente pensando num plano alternativo para o bairro e políticas públicas para seus moradores e frequentadores. Veja aqui a programação completa e acompanhe as novidades.

“Policial não substitui políticas públicas”, diz colega de assistente social detida em serviço na cracolândia

Na terça-feira (20/06), uma funcionária da ONG SAEC uniformizada e à serviço da prefeitura foi detida na Praça Princesa Isabel. Ela teria insistido em acompanhar a abordagem de policiais militares à duas pessoas em situação de rua, supostamente dependentes químicas. No dia seguinte, seus colegas de trabalho marcaram um ato no mesmo lugar da prisão, mas mudaram o local por medo de represálias da polícia.

Os assistentes sociais da ONG contratada pela Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social percorrem diariamente a região para oferecer apoio especializado à quem vive na rua, indicando vagas em albergues e comunidades terapêuticas, orientando como tirar documentos novos no Poupatempo, além de fazer a ponte para outros serviços de saúde. Apesar de trabalharem no “fluxo”, como os frequentadores chamam a aglomeração de usuários de crack, na hora da manifestação em defesa do seu trabalho avaliaram que seria melhor garantir a segurança e a integridade física dos usuários. Isto significa manter a polícia longe.

O medo era que alguém gritasse palavras de ordem contra os policiais e isto desencadeasse um conflito. A manifestação aconteceu, então, a três quadras dali, na R. Helvétia, entre a tenda do antigo programa municipal De Braços Abertos e uma unidade de saúde mental do estado.

Segundo uma pessoa que trabalha nesta ONG e preferiu não se identificar, “a única coisa que coloca a gente em risco é a polícia ficar mudando os usuários de lugar toda hora”. Brigas e confusões costumam acontecer em momentos de tensão como estes.

O Observatório de Remoções acompanha os desdobramentos da operação policial que expulsou pessoas em situação de rua e usuários de drogas da R. Dino Bueno, perto da esquina com a R. Helvétia, e lacrou quase todos os hotéis, pensões e bares da quadra. Esta intervenção policial também é uma intervenção urbana que ameaça moradias populares na região.