Ao menos 5.500 famílias foram removidas só em 2017.

O Observatório de Remoções elaborou uma nova versão do mapa de remoções que apresenta uma análise histórico-espacial dos processos de remoção na Região Metropolitana de São Paulo no ano de 2017.

Para visualizar o mapa em tela cheia clique aqui.

Desde 2010, o Observatório de Remoções mapeia colaborativamente os processos de remoção de famílias de suas áreas de moradias. Esse trabalho busca dar visibilidade a um fenômeno histórico e sistemático, que têm impactado diretamente o modo de vida de milhares de pessoas, principalmente as mais vulneráveis. O primeiro resultado público deste trabalho surge em 2012, com uma cartografia que traz informações detalhadas sobre esses processos de remoções na capital paulista. Tal mapeamento, partiu de dados veiculados pela imprensa, informações coletadas em campo e denúncias de violações recebidas pela Relatoria Especial para o Direito à Moradia Adequada da ONU.

Após esse primeiro esforço de sistematização o Observatório de Remoções buscou aprimorar o processo de mapeamento de remoções, para consolidá-lo como uma ferramenta que subsidiasse as análises do fenômeno na região metropolitana de São Paulo e, ao mesmo tempo, fortalecesse os movimentos sociais e comunidades atingidas.   Nesse sentido, no final de 2016 é lançada a segunda versão pública do mapeamento, que inclui dados entre 2010 e 2016, para a capital e a região do ABC. Os dados foram obtidos tanto a partir da pesquisa realizada na primeira fase do projeto do Observatório de Remoções, como também da coleta de informações veiculadas na mídia e denúncias de parceiros.

Destaca-se que na segunda versão, a tecnologia de mapeamento também possui caráter colaborativo e proporciona um canal de denúncia online onde comunidades, ativistas e pesquisadores podem notificar locais ameaçados e casos de remoção. Entretanto, verificou-se que o engajamento dos movimentos e atingidos com a nova plataforma de mapeamento foi abaixo do esperado, do total de 912 ocorrências, apenas 6 foram cadastradas por esses grupos.

A nova versão da plataforma de mapeamento lançada por meio deste post complementa o trabalho desenvolvido até o momento e busca ampliar o engajamento para assim consolidar o mapa como um instrumento na luta contra as remoções. Para tanto modificou-se a forma de inserção das denúncias: o registro das ocorrências de remoções ou ameaças será realizado a partir de um formulário simplificado ou via um número específico de whatsapp (+55 11 99565-0939). Espera-se assim facilitar o processo de comunicação com as comunidades e movimentos. Para apresentar a ferramenta de denúncia aos grupos interessados serão realizadas ainda no primeiro semestre de 2018 uma série de oficinas territoriais (ver em breve calendário que será lançado neste site).

Destacam-se também na nova versão a sua plasticidade — visual que ilustra seu caráter de denúncia; a sua interatividade — possibilidade do usuário verificar o processo de remoções em uma série histórica e acessar outras informações que detalham as ocorrências, tais como links com reportagens e vídeos. Outra questão que merece destaque é que a partir desse novo formato, o Observatório de Remoções realizará análises semestrais das remoções na RMSP. O presente mapa contempla o processo de remoções no ano de 2017; no final do primeiro semestre de 2018 será lançada uma atualização com os primeiros dados deste ano. Além do mapa em si, também serão publicados infográficos e outras análises pertinentes, para assim facilitar a leitura pelo público em geral.

Os dados foram levantados a partir do acompanhamento de notícias veiculadas na mídia e de contatos junto à movimentos, lideranças e entidades de defesa jurídica. Os dados de 2017 não incluem, neste momento, dados provenientes do poder público, pelo fato de não ter ocorrido atualizações nos bancos de dados oficias. Além do mais, nota-se que houve um considerável corte no que diz respeito aos gastos referentes a novas intervenções públicas, tais como grandes obras e projetos de urbanização de favelas, sendo que em grande parte dos municípios apenas segue em andamento o que já havia sido contratado, em anos anteriores. É importante lembrar que, assim como os mapeamentos e resultados anteriores, tratam-se de números subestimados.

Mesmo assim, o olhar lançado a partir dos casos de remoção e ameaças de remoções em 2017 mostram indícios de alterações, quando comparadas com os anos anteriores, na dinâmica desses processos de despossessão. Ao analisarmos os dados, percebe-se que houve uma grande incidência de remoções motivadas por reintegrações de posse em áreas particulares, sendo que parte considerável localiza-se em regiões periféricas da metrópole, havendo uma concentração na zona leste de São Paulo. A lógica se repete ao olharmos para as ameaças, o que reforça a hipótese de um aumento dessas ocorrências.

A percepção de lideranças de movimentos de moradia entrevistados ao longo do ano de 2017 corrobora com essa hipótese, já que o aumento do número de ocupações nas periferias traria como impacto o aumento do número de reintegrações de posse nesses territórios. Segundo os relatos as ocupações em terrenos vazios nas franjas da metrópole aumentaram vertiginosamente nos últimos meses. Essa constatação é recorrente em diversas falas, conforme exposto por uma liderança da Zona Leste: “As ocupações aumentaram muito, todo dia aparece um monte de gente procurando lugar pra morar porque não consegue pagar o aluguel. E isso tá aumentando muito rápido, cada dia mais tomado.”

Todavia as remoções e ameaças de remoções não estão presentes somente nas bordas da metrópole. Destaca-se também a presença destes processos na região do centro antigo de São Paulo, em especial nos bairros Luz e Campos Elísios, onde está localizado também o fluxo da “cracolândia”. Neste território existe uma somatória de projetos urbanos que visam sua “renovação”, em especial a presença de duas Parcerias Público Privadas (PPPs) – a PPP Casa Paulista, para a construção de habitação, e a PPP do Hospital Pérola Byington.  Esses projetos são apresentados pelo Governo do Estado e pela Prefeitura de São Paulo como as principais ações públicas para aquela área, mas ao mesmo tempo eles têm sido a razão para uma série de violações de direitos humanos em curso: ações de caráter higienista que empregam violência contra usuários de droga e população em situação de rua, demolição e lacramento de imóveis, ameaças de remoção de famílias pobres que residem majoritariamente em pensões, fechamentos de hotéis sociais vinculados a ações de redução de danos  do Programa de Braços Abertos, dentre outras.

Seja na periferia geográfica, ou mesmo na “periferia do centro”, outra hipótese levantada é que a conjuntura política atual tem relação direta com a realidade descrita acima. Esta conjuntura estaria marcada pelo fortalecimento do urbanismo neoliberal, implicando em processos de privatização e cercamento de espaços, e pelo crescimento da narrativa anti- política, criminalizando movimentos sociais e desconsiderando a participação social.

Relacionado a essa conjuntura, destaca-se ainda o surgimento de ameaças de remoção a ocupações culturais, localizadas em equipamentos públicos abandonados pelo Estado que tem tido sua função social resgatada graças ao esforço de coletivos autônomos. Majoritariamente, esses espaços estão ameaçados pelo programa municipal de desestatização e/ou conflitos com o poder público, sendo que o caso mais emblemático é da Ocupação Cultural Mateus Santos, em Ermelino Matarazzo. Esta ocupação, desde maio de 2017, vem sofrendo uma série de tentativas de interdição por parte da Secretaria Municipal de Cultura e pela Prefeitura Regional. Embora a hipótese seja a de que tais ameaças estão relacionadas com uma ampla conjuntura, que também impacta os outros processos analisados, é fundamental lembrar que trata-se de outro tipo de processo de remoção, cujo impacto é de difícil mensuração. Apesar de não haver remoções de famílias, o fechamento desses espaços pode impactar comunidades inteiras, já que muitas vezes tais ocupações são a única referência cultural no território.

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