Para onde foram as famílias removidas da quadra 36?

O Observatório de Remoções tem acompanhado as famílias que foram removidas da quadra 36, no bairro de Campos Elíseos, no centro de São Paulo, onde o governo do Estado pretende construir a nova sede do Hospital Pérola Byington, por meio de uma Parceria Público-Privada. No mês de abril de 2018, cerca de 200 famílias precisaram deixar suas casas para dar lugar ao empreendimento, sem que qualquer alternativa de moradia definitiva lhes fosse apresentada e sem que o Conselho Gestor da Zona Especial de Interesse Social (ZEIS) da quadra, que precisa deliberar sobre qualquer intervenção no território, tivesse sido devidamente formado.

O acompanhamento da situação dessas famílias pelo Observatório de Remoções se dá no âmbito do Fórum Aberto Mundaréu da Luz, que reúne uma série de outros indivíduos, coletivos e instituições. Assim que as famílias deixaram suas casas, um levantamento permitiu mostrar para onde elas tinham se mudado; a maioria permaneceu no centro da cidade, a uma distância de cerca de 1 km da antiga morada. No mapa abaixo, é possível verificar como se deu esse deslocamento, imediatamente após a remoção.

Boa parte dessas famílias já vivenciou mais de um deslocamento forçado, e vivem em estado de permanente transitoriedade. No infográfico abaixo, é possível saber um pouco mais sobre a realidade que essas famílias enfrentaram logo após precisarem deixar a quadra 36, além de ver uma versão do mapa que olha para uma escala maior, permitindo ver que algumas famílias saíram inclusive do município de São Paulo.

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Último refúgio da quadra 36 é destruído por obra irregular do Pérola Byington

Por Renato Abramowicz Santos e Felipe Villela

A última ocupação da quadra 36 de Campos Elíseos, região conhecida como “Cracolândia”, foi lacrada pelo governo do Estado na segunda-feira (05/06). Os moradores acordaram com policiais fortemente armados dentro de seus quartos, sem apresentarem qualquer mandado. A oficial de justiça só chegou horas depois, por volta das 8h30 da manhã, acompanhada por um procurador do Estado e representantes da CDHU, da Secretaria de Saúde e da Construcap, empreiteira contratada em esquema de parceria público-privada (PPP) para construção do novo hospital Pérola Byington. Os processos de remoção e implantação do projeto, no entanto, são questionados pelo Ministério Público (MP).

Caminhão na porta da última ocupação da quadra 36. Foto: Felipe Villela

As remoções na quadra começaram em abril de 2018. Desde então, pelo menos 162 famílias foram expulsas e quase todos os imóveis da quadra foram demolidos ou interditados. O último refúgio, um antigo sobrado na alameda Glete 237, abrigava em torno de onze famílias que haviam sido expulsas de imóveis na vizinhança sem receber qualquer atendimento habitacional. A maioria veio de uma ocupação vizinha, um casarão histórico na esquina da alameda Glete com avenida Rio Branco, onde viviam cerca de 70 famílias.

Os primeiros emparedamentos aconteceram dois dias após a eleição do conselho gestor da quadra 36. A constituição desse conselho paritário que reúne representantes do poder público e da sociedade civil é uma exigência legal, já que ali é uma ZEIS-3 (Zona Especial de Interesse Social em área urbana consolidada), e só foi constituído porque o MP interviu no processo. Qualquer projeto de transformação do território deve ser discutido e aprovado por esse conselho antes do início da obra. O MP acusa o governo do estado de infringir a legislação de Zeis ao contratar construtora e iniciar desapropriações, ainda em 2013, sem conhecimento dos moradores. As remoções e atendimentos também aconteceram à revelia de qualquer negociação com os atingidos pela obra, que perdem ao mesmo tempo suas casas e fontes de renda, já que muitos são comerciantes na quadra.

Conforme as demolições avançavam, o imóvel no número 237 passou a servir de depósito para materiais de comércios destruídos na vizinhança. Como aconteceu com uma oficina de conserto de eletrodomésticos, que levou dezenas de ventiladores e ferramentas para o prédio. Renata, coordenadora dessa ocupação e que mantinha um bar na esquina da alameda Barão de Piracicaba com rua Helvétia, também levou seus equipamentos de trabalho para o prédio onde morava quando seu ponto comercial foi arrasado.

Renata vivia nesse imóvel desde 2013, após ser expulsa de onde morava por outra ação do Estado, que removeu e demoliu um quarteirão inteiro, daquela vez na esquina da rua Helvétia com alameda Cleveland. O terreno permanece vazio, com exceção de dois prédios. Na época, Renata saiu com um termo da CDHU garantindo atendimento definitivo, o que nunca aconteceu.

Agora, ela receberá um auxílio-moradia mensal de R$400, além de um segundo termo da CDHU com nova promessa de algum dia acessar uma habitação digna e com segurança na posse. Contudo, vivendo com sete de seus nove filhos e sem emprego com carteira assinada, alugar um imóvel no mercado formal é uma tarefa quase impossível. A única opção para não perder a rede de suporte e vínculos que ela constituiu na vizinhança onde mora desde que nasceu, há 35 anos, é se submeter a uma moradia precária por ali mesmo. Provisoriamente, ela foi com os filhos para uma pensão na quadra 37 e suas coisas foram para um depósito que ela mesma encontrou perto dali.

Seu irmão, Paulo, ajudou a organizar a mudança. Ele estava resignado até encontrar a oficial de justiça. “A senhora já me tirou [de casa] cinco vezes”. Ao que a oficial respondeu: “E daqui a pouco vou te tirar de novo”. Paulo está ameaçado de remoção porque mora na quadra vizinha, a 38, onde prefeitura e governo do estado pretendem demolir tudo para construir torres habitacionais também em esquema de PPP. “Eu aviso para eles não mudarem para aqui perto. Tudo isso vai cair”, ela prevê, se referindo também à quadra 37, para onde Renata se mudou.

Habitações demolidas na quadra 36 com prédios da PPP habitacional ao fundo. Foto: Lizete Rubano

Quem também estava morando na ocupação de Renata era uma senhora bastante doente junto de seu neto de 14 anos. Eles viviam numa ocupação vizinha quando, em abril, foram removidos sem receber auxílio-moradia ou qualquer atendimento habitacional. A opção encontrada foi ir para a ocupação da Renata. Enquanto os funcionários chamados pela CDHU para realizar a mudança levavam suas caixas para o caminhão, amigos acharam um quarto em uma pensão na quadra vizinha, mas o espaço era tão pequeno que suas coisas tiveram de ser despachadas para um depósito da Secretaria de Saúde na praça Panamericana, na zona oeste da cidade. Depois de um mês, ela terá de pagar uma taxa diária caso suas coisas permaneçam no depósito ou arcar com o frete de lá até o centro da cidade, onde pretende permanecer morando. Sem ter recebido nenhuma forma de auxílio público, vizinhos organizaram uma “vaquinha” para pagar o primeiro mês de aluguel dessa família na nova pensão.

Das 162 famílias expulsas da quadra 36, 122 estão recebendo auxílio-moradia pela CDHU. A maioria se mudou para um local próximo. Algumas pessoas foram para favelas na zona norte e outras para territórios populares nas zonas leste e sul. Com a dispersão, a participação popular no conselho gestor é incerta.

Expulsões e demolições apressadas e arbitrárias são eventos recorrentes naquela região, sempre com a justificativa de acabar com a “Cracolândia” para “revitalizar” a área . Apesar disso, a concentração de usuários de drogas e pessoas em situação de rua não diminuiu por ali. Ao contrário, o arrasamento de grandes áreas, que permanecem abandonadas por anos, só faz crescer a população que vive nas ruas da área central, e aumentar o sofrimento das pessoas com vidas marcadas pela sucessão de habitações precárias e provisórias.

Refugiados urbanos: as vítimas do desastre habitacional paulistano

Acampamento de famílias no Largo do Paissandu, centro de São Paulo, vítimas do desabamento da Torre de Vidro (Foto: Paulo Pinto)

Por Felipe Villela

Uma ocupação de 26 andares desmoronou, no centro de São Paulo, acendendo um alerta vermelho. Em meio aos destroços do incêndio, a crise habitacional paulistana ficou exposta. Centenas de famílias perderam tudo no desabamento da Torre de Vidro. Mas, para muitas delas, não era a primeira mudança forçada.

É o caso de Deise, que passou a acampar no Largo do Paissandu. A barraca de camping, instalada em frente à Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e à antiga morada incendiada, é mais um lar improvisado. Sete anos atrás, ela sofreu outra mudança indesejada, quando um incêndio destruiu a casa onde morava na Favela do Moinho. Passou a morar numa ocupação na Avenida Rio Branco, em Campos Elíseos, mas em abril deste ano foi expulsa de casa pelo governo do Estado, para que o quarteirão onde morava com centenas de outras famílias pudesse dar lugar a um hospital. Viveu na Torre de Vidro por apenas duas semanas, até tudo virar cinzas.

As vítimas desses desastres são obrigadas a viver em transitoriedade permanente, sem poder alimentar planos para o futuro. Neste texto, conheça histórias de vida que carregam as marcas do desastre habitacional paulistano, responsável por produzir, de forma sistemática e recorrente, novos refugiados na cidade de São Paulo, especialmente na região central.

(Infográfico: Aluizio Marino)

Na madrugada do dia 1º de maio, Deise acordou com o barulho de uma explosão. No meio da gritaria, só teve tempo de levantar os cinco filhos e pegar a mochila onde guarda todos os documentos importantes, sempre pronta para um caso de emergência. Deixou para trás tudo o que tinha trazido há apenas duas semanas da outra ocupação onde vivia, a pouco mais de um quilômetro dali, e correu para a rua.

Deise morava no terceiro andar do prédio. Na fuga, enquanto as janelas de vidro estouravam por causa do calor das chamas, ainda passou no segundo andar, onde viviam sua irmã, seus sobrinhos e sua mãe. Tudo ficou escuro, de repente, enquanto ainda faltava o último lance de escada. O trecho mais difícil era helicoidal, com apenas um singelo corrimão metálico e nenhum guarda-corpo para crianças. O prédio de 26 andares ruiu pouco depois de chegarem na rua. De uma só vez, Deise perdeu fogão, armário, a cama das crianças e todo o material escolar delas, para citar apenas as coisas mais preciosas.

Antes deste incêndio, que consumiu o prédio tombado pela prefeitura como ícone da arquitetura paulistana nos anos 1960, no largo do Paissandu, ela viveu pouco mais de um ano em Campos Elíseos, num casarão ocupado por um grupo sem ligação com movimentos de moradia, na Avenida Rio Branco esquina com Alameda Glete. Esse prédio, também considerado patrimônio histórico, era um grande galpão vazio quando foi tomado por aproximadamente 70 famílias.

Em abril de 2018, o casarão foi emparedado pela Secretaria de Saúde do Estado, que removeu moradores de um quarteirão inteiro para construir a nova sede do hospital Pérola Byington. Ali vivam muitas pessoas que, como Deise, vagavam por ocupações e pensões na região desde que pelo menos 300 casas na Favela do Moinho viraram carvão em outro grande incêndio, em dezembro de 2011. É o caso de Cássia, sua ex-vizinha na favela e no casarão. A vida dela também é marcada por mudanças em série, e o incêndio no Moinho é uma das lembranças mais traumáticas.

Moinho

Nascida no Brás, Cássia foi criada na favela. Depois de casar, morou em Taipas, no extremo noroeste da cidade, e voltou para o centro para viver no Cine Marrocos ocupado no centro, esvaziado pela polícia em operação de repressão ao tráfico de drogas, morou um tempo na mesma Torre de Vidro que caiu recentemente, até voltar para o Moinho. Foi quando enfrentou o primeiro incêndio.

Desta vez, como sua casa foi afetada, mas não a da mãe, Cássia teve onde se refugiar. Mas, naquela época, a mãe e as três irmãs moravam juntas. “Em quinze minutos o fogo tomou toda a favela. Dava pra ver a chama azul de gás sobre as casas. Saí só com a roupa do corpo, de pijamas”. Com lágrimas nos olhos, ela conta que quando voltou para ver o que tinha sobrado, mas só reconheceu o corpo carbonizado do seu cachorro.

A máquina de lavar que tinha acabado de comprar com o dinheiro do novo emprego como caixa de supermercado, os móveis… estava tudo perdido. Sem opção, a família ficou na rua por um mês, depois acampou na quadra de uma escola de samba na vizinhança até arrumar um novo espaço na mesma favela. De lá, Cássia ajudou a construir a ocupação no casarão na Av. Rio Branco, a apenas 800 metros do Moinho, em fevereiro de 2017.

A peregrinação depois do incêndio fez Cássia perder o emprego. “Não tinha cabeça, não tinha como manter horário regular sem ter onde dormir”, ela lembra. Cássia também se ressente de ter sido excluída pela prefeitura do cadastro dos atingidos que receberiam auxílio aluguel depois da tragédia, que foi pago à família como um todo. “A pessoa tá morando com parentes para dividir as contas e não tem direito a uma casa”.

Auxílio-aluguel

Diferente de Cássia, Deise conseguiu auxílio-aluguel no incêndio no Moinho. Desde de dezembro de 2011, recebe mensalmente uma transferência da Secretaria Municipal de Habitação (Sehab), que atualmente está em R$ 400. No começo de 2018, quase 30 mil pessoas recebiam auxílio-moradia na cidade.

Essa ajuda é oferecida apenas a famílias que perdem suas casas por causa de obras públicas, ação judicial de reintegração de posse ou desastres (como incêndios, deslizamentos de terra e inundações). O pagamento deveria servir como ajuda até a família ser encaminhada para uma moradia definitiva. Deise, no entanto, recebe auxílio-aluguel há sete anos, enquanto circula por moradia precárias com aluguel barato.

Um levantamento feito pelo Fórum Aberto Mundaréu da Luz em três pensões vizinhas ao casarão ocupado por Cássia e Deise, em novembro de 2017, serve como amostra do perfil socioeconômico dos moradores da vizinhança. Das 33 pessoas entrevistadas, 60% estavam desempregadas e 48% gastavam mais de 2/3 da renda com aluguel, que podia custar até R$ 700 para viver num cômodo sem janelas. O estudo foi feito durante a elaboração do Campos Elíseos Vivo, uma proposta de transformação do bairro feita com os moradores, e coincide com a realidade indicada em outros levantamentos.

O ônus excessivo com aluguel, quando se compromete mais de 1/3 da renda com moradia, é o problema relacionado a 58% dos casos de demanda por políticas habitacionais na Região Metropolitana de São Paulo, segundo estimativa da Fundação João Pinheiro com base no Censo de 2010. O Plano Municipal de Habitação propõe medidas para lidar com essa necessidade habitacional, que está diretamente relacionada a dinâmicas econômicas e ao mercado de aluguéis, mas o projeto de lei apresentado em 2016 até hoje não foi aprovado pela câmara municipal.

Enquanto isso, as famílias precisam achar um lugar muito barato para morar. Com R$ 100 por mês, era possível viver num barraco improvisado com tapumes dentro do casarão na Av. Rio Branco. Como a altura entre as lajes de concreto dos dois pavimentos é muito grande, alguns cômodos foram construídos em mezaninos de madeira. Os poucos banheiros foram improvisados no fundo do prédio, e quem podia ajeitava uma cozinha no próprio cubículo, com fogão e botijão de gás. Metade do telhado é de estrutura metálica, enquanto a outra metade, de madeira, aparece chamuscada por um antigo incêndio.

Casarão que virou ocupação na esquina entre a Avenida Rio Branco e a Alameda Glete, em Campos Elíseos, centro de São Paulo (Foto: Felipe Villela)

Quando o casarão foi ocupado, já se sabia que o governo do Estado tinha um projeto para a área. A esperança, segundo Cássia, era morar ali pelo menos enquanto corresse o conflito judicial entre o proprietário do imóvel e o Estado. Durou pouco mais de um ano. O governo conquistou a propriedade, manteve os planos de construir o novo hospital Pérola Byington e encostou um caminhão de mudança para as famílias na porta da ocupação.

Dessa vez, Cássia conseguiu auxílio moradia com a Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), do governo do Estado. Diferente de Deise, que já recebia auxílio-aluguel e foi morar na Torre de Vidro, ela empacotou suas coisas e mudou-se com o marido e quatro filhos para uma quitinete na região. Pagou o depósito caução exigido como garantia com ajuda de parentes, e se comprometeu a pagar R$ 1.000 por mês de aluguel. A adaptação num condomínio formal, no entanto, não será fácil. “O preconceito com quem vem de ocupação é enorme. Eu tive que assinar um documento dizendo que meus filhos não vão destruir o prédio”.

Crise habitacional

Pelo menos oito famílias que viviam no casarão não foram cadastradas, e saíram da ocupação sem receber nenhum benefício, com seus móveis empilhados numa carroça. A CDHU considerou que elas não viviam no lugar há tempo suficiente para ter direito a auxílio. Apesar de serem tão pobres quanto as outras pessoas removidas, a única opção oferecida pelo poder público foi o encaminhamento para um abrigo de pessoas em situação de rua.

Essa foi apenas uma das inúmeras irregularidades que marcaram o processo de remoção dos moradores de toda a quadra 36, em Campos Elíseos. Como ali é uma Zona Especial de Interesse Social (ZEIS), o Plano Diretor da cidade determina que qualquer projeto deve ser debatido e aprovado pelos moradores num conselho gestor. Apesar de ser uma área popular protegida na cidade para que essas pessoas viverem com dignidade, sem sofrer com frequentes remoções, essa Zeis foi desconsiderada pelo próprio governo do Estado. O conselho gestor da área, por exemplo, só foi empossado depois que o casarão já estava emparedado.

O novo hospital Pérola Byington deve ser construído na quadra 36 em esquema de parceria público-privada (PPP). Na mesma vizinhança, outra PPP do governo do Estado, desta vez para produzir habitação, ameaça mais duas quadras inteiras. Apesar de demolir pensões e ocupações, a PPP não tem espaço para as famílias com renda mensal de até um salário mínimo, nem para as que não podem comprovar um vínculo empregatício – o que exclui os moradores atingidos pelas obras em Campos Elíseos. A principal política habitacional do governo do Estado, então, agrava a situação de vulnerabilidade social no centro da cidade, obrigando famílias a se deslocar de uma moradia precária para outra.

Não por acaso, os primeiros prédios da PPP construídos na vizinhança foram saqueados na madrugada do dia 23 de abril por pessoas em situação de rua que costumam se reunir por ali. A concentração é tão grande que a região ficou conhecida como Cracolândia, apesar de nem todos serem usuários de drogas. Os prédios foram erguidos em 2017, na quadra arrasada pelo governo do Estado ainda em 2010, quando a antiga rodoviária, moradias e comércios foram removidos. Sete anos se passaram até que algo fosse construído no local, e a quadra onde se prevê a construção do hospital corre o mesmo risco, já que nenhum projeto arquitetônico foi apresentado até agora. Outras duas quadras estão em risco iminente de destruição, desta vez porque a prefeitura também prevê implantar a sua própria PPP Habitacional no local.

Enquanto o governo do Estado concentra esforços nessa PPP, a prefeitura cortou 1/3 do orçamento da Sehab em 2018 em relação ao ano anterior, enquanto o orçamento geral do município cresceu 5%. O governo federal, por sua vez, bloqueou todos os recursos para produção de novas moradias populares no país. A negligência do poder público com a questão habitacional se soma a uma conjuntura crítica, de desemprego alto, salários baixos e imóveis ainda valorizados pelo último boom imobiliário.

A soma de tantos descasos contribuiu para a crise habitacional que explodiu no debate público com o incêndio na Torre de Vidro. A tragédia lança luz sobre a condição de permanente transitoriedade de quem circula por ocupações, cortiços, pensões e favelas na cidade de São Paulo e no mundo, como Raquel Rolnik mostrou no livro “Guerra dos Lugares: a colonização da terra e da moradia na era das finanças”. Para essa população, remoção é apenas o que fica entre uma moradia precária e outra.

Mais famílias sem teto a cada remoção: conheça o novo mapa das remoções e ameaças 2017/2018.

Desde 2017, ao menos 14 mil famílias foram removidas de suas moradias na Região Metropolitana de São Paulo. Após a saída a grande maioria dessas pessoas vai para favelas e ocupações .

Para visualizar o mapa em tela cheia clique aqui.

O Observatório de Remoções mapeia de forma colaborativa os processos de remoção e ameaças de remoções de famílias de suas moradias desde 2010. Esse trabalho dá visibilidade a um fenômeno histórico e sistemático, que têm impactado diretamente a  vida de milhares de pessoas, marcadas pela precariedade habitacional e pela transitoriedade permanente, ou em outras palavras, múltiplos deslocamentos forçados.

A última versão pública do mapeamento[1] refere-se ao período de  janeiro de 2017 a abril de 2018 e mostra o avanço de remoções na metrópole, atingindo principalmente o centro histórico da capital – ocupações de edifícios –  mas também em franjas periféricas, aonde tem ocorrido um aumento de formação de novos assentamentos precários. No centro antigo da cidade de São Paulo, destacam-se as remoções e ameaças no bairro dos Campos Elíseos, onde se localiza o fluxo da cracolândia., com a implantação de parcerias publico privadas.

Em Campos Elíseos, ainda em abril deste ano, foi removido um quarteirão inteiro – no lugar está prevista a construção do Hospital Pérola Byington. Cerca de 250 pessoas que viviam ali foram removidas sem tempo hábil para planejar uma mudança digna, e apenas uma parte delas recebeu o auxílio aluguel, que corresponde a R$400,00/mês. Como o valor do auxílio é insuficiente para arcar com um aluguel na região central, a maioria dessas pessoas se deslocou para outros ocupações ou para favelas. Entre os destinos estão a Favela do Moinho, favelas em Nova Cachoeirinha (Zona Norte) e, inclusive, a ocupação de moradia instalada no Edifício Wilson Paes de Almeida, que recentemente desabou após um incêndio.

O avanço dos Projetos de Intervenção Urbanística (PIU) também ameaça remover muitas comunidades – no mapeamento verificamos ao menos 30 mil famílias ameaçadas na região metropolitana. Além do PIU Terminal Princesa Isabel, cujo objetivo é acoplar projetos de revitalização dos Campos Elíseos a partir da concessão do Terminal; destaca-se o PIU Arco Jurubatuba, que será discutido na Câmara Municipal em breve, e ameaça remover 42 comunidades inseridas no perímetro do projeto, a grande maioria já consolidadas

As remoções têm como consequência aprofundar ainda mais a tragédia da habitação na metrópole, pois cria um círculo vicioso que desloca milhares de pessoas e as abandona em condições cada vez mais precárias. O caso das remoções na cracolândia e o incêndio ocorrido na ocupação do Largo Paissandu, ilustra de forma trágica o que acabamos de afirmar.

Para facilitar o canal de denúncias sobre processos de remoção, o observatório lançou recentemente um número de whatsapp específico para receber informações. Caso queira reportar alguma informação basta apenas enviar uma mensagem para o número: (11) 9.9565-0939.

[1] Os dados foram levantados a partir de um canal de denúncias, do acompanhamento de notícias veiculadas na mídia e de contatos junto à movimentos, lideranças e instituições de defesa jurídica.

Nota contra a criminalização das famílias que ocupavam edifício no Largo do Paissandu

ENQUANTO MORAR FOR PRIVILÉGIO, OCUPAR É UM DIREITO: #QUEMOCUPANÃOTEMCULPA

Na madrugada do dia 01 de maio de 2018, em São Paulo, uma tragédia aconteceu na ocupação do Largo Paissandu. As entidades e movimentos sociais que atuam na defesa do direito à moradia vêm manifestar solidariedade às famílias que estavam no imóvel. É inadmissível que este momento de tristeza e dor seja manipulado pelos verdadeiros responsáveis por tais situações para criminalizar os movimentos e os trabalhadores de baixa renda, que não têm alternativa senão viver nas ocupações.

As famílias que vivem em ocupações são vítimas do descaso, da irresponsabilidade do Estado e da especulação imobiliária – que impõem alto custo de habitação, sobretudo nas áreas centrais. Não é a primeira e não será a última tragédia, enquanto o investimento público para o enfrentamento do problema habitacional não for significativo e comprometido com o acesso à moradia como um direito.

Enquanto a população de baixa renda é penalizada, os latifúndios urbanos concentram dívidas milionárias e descumprem reiteradamente a Constituição Federal. A Prefeitura desrespeita o Plano Diretor, uma vez que há mais de um ano deixou de notificar os proprietários de imóveis que não cumprem a função social da propriedade, o Governo Federal corta o Programa Minha Casa Minha Vida para os mais pobres e o Governo do Estado tem apostado suas ações na implantação das Parcerias Público-Privadas, que não atendem os mais pobres e enriquecem as empreiteiras e donos de imóveis. Ainda, o Poder Judiciário – que goza de um imoral auxílio moradia – ignora o descumprimento da lei pelos proprietários e se posiciona, via de regra, pelo despejo e remoção de milhares de famílias, agravando a desigualdade social. Existem inúmeros imóveis públicos em plenas condições de reforma para uso habitacional.

As ocupações são a resposta das famílias organizadas frente a essa situação. Os atuais Governos, ao acusar os movimentos, demonstram uma atitude covarde por parte daqueles que são os principais responsáveis por essa crise e, em aliança com o mercado, pelo aprofundamento da tragédia urbana.

Por fim, reiteramos unidade na resistência de cada ocupação e exigimos: a responsabilização do Estado em cada recusa à regularização de energia elétrica, saneamento e prevenção de riscos em ocupações; o investimento público na viabilização de moradias dignas; o enfrentamento à especulação imobilária; políticas de mediação de conflitos fundiários com participação popular; a conversão dos edifícios ociosos em moradia popular; e a regularização fundiária de ocupações.

Quantos prédios ainda irão cair até que sociedade e governos entendam que a moradia é um direito de todos e um dever do Estado? Permaneceremos mobilizados.

São Paulo, 1 de maio de 2018

Central de Movimentos Populares
Frente de Luta por Moradia
União dos Movimentos de Moradia
Movimento dos Trabalhadores Sem Teto
Movimento Moradia para Todos
Frente Brasil Popular
Frente Povo Sem Medo
Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos
Peabiru TCA
Usina Ctah
LabJuta UFABC
Coletivo de ocupações, favelas e cortiços da cidade de São Paulo
Observatório de Remoções
Observa SP
LabCidade FAU USP
LabHab FAU USP
Fórum Aberto Mundaréu da Luz
Sindicato dos Arquitetos de São Paulo
Instituto Brasileiro de Direito Urbanístico
Instituto Pólis
Rede Mulher e Habitat
Secretaria Latino Americana de Vivienda y Habitat Popular
Coalizão Internacional do Habitat
Movimento dos Trabalhadores Sem Terra Leste 1
Movimento de Moradia da Regiao Sudeste
Movimento dos Trabalhadores Sem Terra da Zona Oeste
Unificação das Lutas de Cortiços e Moradia
Movimento em Defesa do Favelado da Região Belem
Movimento de Defesa dos Favelados – Santo André
Associação dos Sem Teto Taboao Diadema
Associação Independente da Vila Nova Esperança
Associação de Moradores da Sólon
Movimento de Moradia City Jaraguá
Movimento de Moradia na Luta por Justiça
Associação Nossa Luta Nossa Terra Diadema
Central Pró Moradia Suzanense
Movimento Independente de Luta Por Habitação de Vila Maria – Ocupação Douglas Rodrigues
Associação de moradores Pantanal capela do socorro
Movimento Terra Livre

Denuncie processos de remoção via whatsapp!

O Observatório de Remoções lançou recentemente um número de whatsapp específico para receber denúncias e informações sobre remoções e ameaças de remoções contra famílias e comunidades que moram na região metropolitana de São Paulo.

Para reportar alguma informação basta apenas enviar uma mensagem para o número: (11) 9.9565-0939.

O Observatório também atualizou o formulário de denúncias, que agora pode ser preenchido a partir do celular. Para acessar o formulário basta clicar aqui.
Estabelecemos esse novo canal de denúncias para facilitar a comunicação com os atingidos e os movimentos sociais envolvidos nas pautas do direito à cidade e dar visibilidade as remoções forçadas em São Paulo, que impactam a vida de milhares de famílias todos os anos.

É importante destacar que desde 2012 o Observatório de Remoções disponibiliza ferramentas participativas de mapeamento das remoções e ameaças de remoção na região metropolitana de São Paulo.

Colaborem na luta pelo direito à cidade, divulguem o mapa das remoções!

‘Vereadora da Cracolândia, já imaginou?’, diz ex-usuária

Há 58 anos, a polícia abriu fogo contra uma manifestação em Joanesburgo, África do Sul, matando pelo menos 50 pessoas e deixando quase duzentos feridos. A reivindicação era que negros pudessem circular livremente por toda a cidade, como só brancos podiam. Aquele 21 de março entrou para história como o Dia Internacional para Eliminação da Discriminação Racial, instituído pela ONU. Hoje, na área central de São Paulo, o lugar onde 67% das pessoas se declaram negras ou pardas está sitiado pela polícia. Para saber como é viver ali, conversamos com Janaína Xavier (36), moradora da vizinhança há dez anos, ex-usuária de drogas e ativista pelos direitos de pessoas em situação de rua. Seu sonho é entrar na política, mesmo com medo de sofrer como Marielle Franco, vereadora assassinada no Rio de Janeiro.

Por Felipe Villela

“Algumas pessoas me falam assim: ‘Ô, Jana, você saiu das drogas, você é uma liderança forte aqui, por que você não se candidata pra ajudar a gente?’ Mas como? Eu não tenho estudo! Mas eu gostei da ideia, eu gosto de trabalhar com a população. Estou querendo abrir uma associação, mas pra isso eu preciso de ajuda. E essa ajuda tinha que vir do governo.

Eu acho que o governante, pra fazer o que faz aqui na Cracolândia, é porque não teve um familiar na droga, não teve um amigo envolvido no crime. O que importa é carinho, abraço, porque as vezes você bebe, você cheira pra tirar aquela tristeza, aquela coisa ruim que você tá passando. Se não tiver um apoio, como que a pessoa sai? Um dia eu também não tinha nada e teve gente que apostou em mim.

Eu fico vendo o jeito como os usuários são tratados, o preconceito. A sociedade vê eles como bicho, não vê eles como ser humano. Aí vem aquela revolta e a vontade é ir pra cima da polícia. Chega uma hora assim que a gente não aguenta mais, mas a gente tem que pensar duas vezes antes de fazer uma besteira. Porque a gente tem filhos, a gente mora aqui na área, e a gente corre o risco de ser forjada e ser presa sem dever nada. Eu já não gosto nem de ficar perto porque me dói, me mata um pouco. Os policiais podem fazer o trabalho deles, mas não desta forma. Nem cachorro merece ser tratado do jeito que eles tratam usuário.

Violência
Uma vez deixaram a minha filha pelada no meio da rua pra ver se ela tava com droga. Mas eu digo pra ela, ‘me chama porque eu vou falar com eles, porque você é usuária mas tem mãe’. E não é só ela, são várias pessoas que chegam perto de mim reclamando. ‘Olha, Jana, nós tá sendo agredido’. Outro dia um usuário queria que fizéssemos um abaixo-assinado pra parar com a violência contra eles. Mas como eu vou fazer sozinha, lutar sozinha? Não tem como eu defender eles sozinha.

Ultimamente piorou a situação, porque, para os inspetores novos, é tudo na ignorância, no palavrão. Até os moradores sofrem agressão, como se todo mundo que morasse aqui fizesse algo de errado. Minhas filhas, quando escutam uma bomba dentro de casa, elas tremem, morrem de medo.

Outro dia eu tava filmando um rapaz sendo agredido, e um GCM [Guarda Civil Metropolitana] veio e falou: ‘Encosta’. Eu falei que não ia encostar. Ele chamou a policial feminina. Ela veio, me pegou pelo cabelo e me colocou de cara pra parede. Eu dei uma cotovelada nela e ela veio pra cima de mim. E eu estava apenas filmando uma abordagem indevida. Aí tava passando outro carro da GCM com um que me conhecia e parou. Disse pra eu ficar calma que eles só iam conferir meus documentos. A coisa mudou na hora em que ela encontrou no meu celular uma foto minha com o [Eduardo] Suplicy. Aí me perguntaram: ‘A senhora é repórter?’ ‘Não, mas eu conheço muita gente’. ‘A senhora trabalha com o vereador Suplicy [PT]?’ ‘Não, mas ele é um grande amigo meu’. Aí eles me dispensaram rápido. Isso tem mexido muito comigo.

Eu tava pensando outro dia, tanto predinho aí que vai ser jogado no chão, por que não faz um alojamento? Coloca uma equipe de pulso firme para não entrar sujeira. Os moradores mesmo ficam responsáveis pela limpeza, por cuidar do dormitório. Eu sei que precisa de muita gente, que é difícil, mas não é impossível. Os usuários falam muito disso, de moradia. Moradia, amor, carinho, uma porta de emprego. Uma oportunidade para a sociedade ver eles de forma diferente. Não só usuário, mas traficante também. Porque muitos estão ali porque não conseguiram achar emprego. As vezes eles dizem que estão cansados dessa vida, querem outra coisa. Por isso, eu quero criar uma associação.

Se eu fosse vereadora, batia na questão da moradia deles. Ter um lugarzinho, mesmo que ele esteja usando a droga dele, mas pelo menos reduzir a quantidade, se aproximar da família.

Eu mesma saí do galpão na Al. Dino Bueno naquele projeto do [Fernando] Haddad (PT), De Braços Abertos, e fomos morar na pensão azul ali da esquina [R. Helvetia com Al. Barão de Piracicaba], em 2014. No começo eu tentei me adaptar ao trabalho, mas não tinha com quem deixar o meu filho, porque ele fica na escola meio período. Ele depende totalmente de mim, é autista e tem cinco anos. Meu marido trabalha até hoje no Braços Abertos. Ele está na jardinagem agora, mas começou na varrição. Semana que vem é a festinha do encerramento do programa e ele vai ficar sem emprego, porque o prefeito [João] Doria (PSDB) acabou com o projeto. Aí a gente não sabe como vai fazer, porque o dinheiro que ele ganha lá e o bico que ele faz é que seguram o aluguel.

A quantidade de família que arrumou um emprego no Braços Abertos, que saiu da rua, saiu do tráfico… Eles vão voltar pra rua. Tem gente que já tá aqui de novo. Um casal que morava num hotel que foi fechado, por exemplo, eles já estão traficando no fluxo [como se chama a concentração de pessoas comprando, vendendo e fumando crack na rua].

Droga
Quando eu era usuária de cocaína, ficava assim três, quatro dias virada na rua, aí chegava um momento que o corpo não aguentava mais, tinha que descansar. Aí eu ia pra casa, comia, tomava banho. Quando a gente fica na rua sem tomar banho, as pessoas olham diferente. Até minha mãe já afastava meus filhos de mim.

É meio complicado falar do meu passado. Eu passei muita dificuldade, porque todo dinheiro que a gente tinha ia pra droga. A gente só conseguia pagar o aluguel com ajuda do pessoal da igreja. Ninguém mais apostava na gente. Eu só escutava: ‘Ah, vai morrer nessa vida’.

Nunca cheguei a passar fome na rua, mas já fiquei alguns dias sem casa. Quando cheguei em São Paulo com o meu terceiro filho, depois de passar um tempo no Rio de Janeiro, minha mãe morava na Ocupação Prestes Maia, mas a coordenação falou que nós éramos traficantes, então a gente não podia entrar lá. Dormi na praça até arrumar um quartinho na Bela Vista.

Eu nasci em Minas Gerais e fui criada no interior do Rio de Janeiro. Minha mãe veio pra São Paulo pra trabalhar e eu fiquei com meu pai e minhas irmãs, mas eles não cuidavam de mim direito. Como minha mãe estava pra um canto e minha família pra outro, acabei ficando sozinha. Aí minha mãe me buscou. Ela era catadora de latinha e papelão. Eu cheguei aqui com 14 anos e grávida da minha filha mais velha, que hoje tá aí no fluxo. Quando saí de lá ninguém sabia que eu tava grávida, eu não sabia o que era gravidez.

Quando ficamos com dificuldade de pagar aluguel, a gente foi morar numa ocupação. Vivemos lá por muito tempo, até minha mãe conquistar um apartamento em Cidade Tiradentes. Ela se mudou pra lá e eu fui viver a minha vida. Hoje, tenho oito filhos, de cinco pais diferentes. Dois pais foram assassinados e com dois eu não tenho mais contato.

Conheci o meu marido na Av. Rio Branco. A gente ficou junto, eu engravidei. Como ele também era usuário de droga, tivemos uma briga lá na Ocupação Mauá e a coordenação pediu pra gente se retirar. Nossa, era muito briga dentro de casa, polícia na porta, ele me agredindo e eu querendo ir pra droga. Várias vezes eu roubei coisas dele. Relógio, telefone, essas coisas, pra poder obter a droga e a bebida. Ele ainda é meu marido, temos quatro filhos. Depois de sair da ocupação, a gente foi morar num hotel na Santa Cecilia. Como lá eu ficava muito presa, minha mãe veio ver um quartinho aqui perto, lá no galpão. Foi quando eu conheci a famosa Cracolândia, há dez anos. Com a droga eu parei há sete anos.

Racismo
Às vezes, quando eu brigo com o meu esposo, ele fala assim: ‘Ah, porque eu sou africano você briga comigo. Se eu fosse brasileiro você não brigaria, porque o brasileiro já mata’. Ele não fala com as pessoas, ele fica fechado, porque ele tem medo do preconceito. Ele é de Joanesburgo [África do Sul] e sente que tem muito racismo aqui. Metade dos amigos dele, que também vieram da África, estão no fluxo. Tem uns que são formados, que vieram tentar trabalhar aqui. Não conseguiram emprego, não conseguiram documentação e acabaram caindo na droga. Pessoal ali me chama de ‘cunhada’, apesar da gente nem ser parente.

Eu também sinto o preconceito. Há duas semanas aconteceu uma coisa comigo. Eu fui nas Casas Bahia tirar uma máquina de lavar. O vendedor fez a ficha, mas quando chegou lá no crediário a moça não quis aceitar. Ela começou a pedir número de telefone e nome de pessoas que eu conhecia. Ela queria saber de onde vem o meu dinheiro. Ela era clara. Eu falei assim: ‘Olha, a senhora não sabe com quem você tá mexendo. Eu tô simples, tô de chinelo, mas isto daí é preconceito’. Ela falou palavras que na hora eu não chorei por vergonha, porque tava muito cheio, minhas filhas estavam junto. Eu fiquei do meio dia até às quatro da tarde só pra tentar aprovar meu crediário. Eu saí de cabeça baixa, porque não fui aprovada. Sendo que meu guarda-roupa, meu fogão, tudo eu comprei lá. Mas no dia seguinte, um vendedor me ligou e disse que tinha falado com o gerente e que eu tinha sido aprovada. ‘A senhora ainda tem interesse pela máquina?’ Aí fui eu e minha filha lá tirar a máquina. Essa semana eu fui lá de novo e tirei um jogo de armário de cozinha.

Garra
Outro dia eu tava no mercado e vi uma senhora que pediu uma gordura pra fritar, e o menino deu também um bife pra ela. Quando ela tava saindo, o segurança pediu pra ver a sacola e tirou o bife. Meu dinheiro não deu pra pagar a mistura dela, e aquilo me doeu. Ela vivia na rua com certeza, queria alimentar alguém, talvez os filhos.

Tem também um menino aqui embaixo que ele rouba, sabe? Um dia eu vi ele apanhando de um monte de gente, e isso doeu meu coração. Meu coração grita muito pra ajudar este rapaz, pra ele sair dessa vida. Mas como que a gente faz se a gente não tem condições?

As pessoas dizem que eu falo muito de bondade, mas é porque eu tenho o sonho de ajudar quem vive na rua. Eu tenho vontade de dar tudo o que este povo precisa, roupa, sapato. E eu tenho aquela garra de ir pra cima, brigar.

Quando eu tava na ocupação e tinha protesto, a líder me colocava pra gritar, porque eu grito forte. Os policiais achavam que eu era liderança, mas eu era pequeninha. Então, num protesto, eu tô ali lutando mas sempre de olhos abertos, porque eu tenho medo de levar um tiro. Agora, vai que eu viro vereadora aqui da Cracolândia, já imaginou o que que as pessoas vão pensar? Vai mexer com muitos policiais que não gostam de mim, e também pode incomodar o pessoal da parte do crime, porque vai mexer com os usuários. Eu tenho medo de acontecer comigo o que aconteceu com aquela vereadora lá do Rio [Marielle Franco], porque a minha voz é como a dela, incomoda.”

Ao menos 5.500 famílias foram removidas só em 2017.

O Observatório de Remoções elaborou uma nova versão do mapa de remoções que apresenta uma análise histórico-espacial dos processos de remoção na Região Metropolitana de São Paulo no ano de 2017.

Para visualizar o mapa em tela cheia clique aqui.

Desde 2010, o Observatório de Remoções mapeia colaborativamente os processos de remoção de famílias de suas áreas de moradias. Esse trabalho busca dar visibilidade a um fenômeno histórico e sistemático, que têm impactado diretamente o modo de vida de milhares de pessoas, principalmente as mais vulneráveis. O primeiro resultado público deste trabalho surge em 2012, com uma cartografia que traz informações detalhadas sobre esses processos de remoções na capital paulista. Tal mapeamento, partiu de dados veiculados pela imprensa, informações coletadas em campo e denúncias de violações recebidas pela Relatoria Especial para o Direito à Moradia Adequada da ONU.

Após esse primeiro esforço de sistematização o Observatório de Remoções buscou aprimorar o processo de mapeamento de remoções, para consolidá-lo como uma ferramenta que subsidiasse as análises do fenômeno na região metropolitana de São Paulo e, ao mesmo tempo, fortalecesse os movimentos sociais e comunidades atingidas.   Nesse sentido, no final de 2016 é lançada a segunda versão pública do mapeamento, que inclui dados entre 2010 e 2016, para a capital e a região do ABC. Os dados foram obtidos tanto a partir da pesquisa realizada na primeira fase do projeto do Observatório de Remoções, como também da coleta de informações veiculadas na mídia e denúncias de parceiros.

Destaca-se que na segunda versão, a tecnologia de mapeamento também possui caráter colaborativo e proporciona um canal de denúncia online onde comunidades, ativistas e pesquisadores podem notificar locais ameaçados e casos de remoção. Entretanto, verificou-se que o engajamento dos movimentos e atingidos com a nova plataforma de mapeamento foi abaixo do esperado, do total de 912 ocorrências, apenas 6 foram cadastradas por esses grupos.

A nova versão da plataforma de mapeamento lançada por meio deste post complementa o trabalho desenvolvido até o momento e busca ampliar o engajamento para assim consolidar o mapa como um instrumento na luta contra as remoções. Para tanto modificou-se a forma de inserção das denúncias: o registro das ocorrências de remoções ou ameaças será realizado a partir de um formulário simplificado ou via um número específico de whatsapp (+55 11 99565-0939). Espera-se assim facilitar o processo de comunicação com as comunidades e movimentos. Para apresentar a ferramenta de denúncia aos grupos interessados serão realizadas ainda no primeiro semestre de 2018 uma série de oficinas territoriais (ver em breve calendário que será lançado neste site).

Destacam-se também na nova versão a sua plasticidade — visual que ilustra seu caráter de denúncia; a sua interatividade — possibilidade do usuário verificar o processo de remoções em uma série histórica e acessar outras informações que detalham as ocorrências, tais como links com reportagens e vídeos. Outra questão que merece destaque é que a partir desse novo formato, o Observatório de Remoções realizará análises semestrais das remoções na RMSP. O presente mapa contempla o processo de remoções no ano de 2017; no final do primeiro semestre de 2018 será lançada uma atualização com os primeiros dados deste ano. Além do mapa em si, também serão publicados infográficos e outras análises pertinentes, para assim facilitar a leitura pelo público em geral.

Os dados foram levantados a partir do acompanhamento de notícias veiculadas na mídia e de contatos junto à movimentos, lideranças e entidades de defesa jurídica. Os dados de 2017 não incluem, neste momento, dados provenientes do poder público, pelo fato de não ter ocorrido atualizações nos bancos de dados oficias. Além do mais, nota-se que houve um considerável corte no que diz respeito aos gastos referentes a novas intervenções públicas, tais como grandes obras e projetos de urbanização de favelas, sendo que em grande parte dos municípios apenas segue em andamento o que já havia sido contratado, em anos anteriores. É importante lembrar que, assim como os mapeamentos e resultados anteriores, tratam-se de números subestimados.

Mesmo assim, o olhar lançado a partir dos casos de remoção e ameaças de remoções em 2017 mostram indícios de alterações, quando comparadas com os anos anteriores, na dinâmica desses processos de despossessão. Ao analisarmos os dados, percebe-se que houve uma grande incidência de remoções motivadas por reintegrações de posse em áreas particulares, sendo que parte considerável localiza-se em regiões periféricas da metrópole, havendo uma concentração na zona leste de São Paulo. A lógica se repete ao olharmos para as ameaças, o que reforça a hipótese de um aumento dessas ocorrências.

A percepção de lideranças de movimentos de moradia entrevistados ao longo do ano de 2017 corrobora com essa hipótese, já que o aumento do número de ocupações nas periferias traria como impacto o aumento do número de reintegrações de posse nesses territórios. Segundo os relatos as ocupações em terrenos vazios nas franjas da metrópole aumentaram vertiginosamente nos últimos meses. Essa constatação é recorrente em diversas falas, conforme exposto por uma liderança da Zona Leste: “As ocupações aumentaram muito, todo dia aparece um monte de gente procurando lugar pra morar porque não consegue pagar o aluguel. E isso tá aumentando muito rápido, cada dia mais tomado.”

Todavia as remoções e ameaças de remoções não estão presentes somente nas bordas da metrópole. Destaca-se também a presença destes processos na região do centro antigo de São Paulo, em especial nos bairros Luz e Campos Elísios, onde está localizado também o fluxo da “cracolândia”. Neste território existe uma somatória de projetos urbanos que visam sua “renovação”, em especial a presença de duas Parcerias Público Privadas (PPPs) – a PPP Casa Paulista, para a construção de habitação, e a PPP do Hospital Pérola Byington.  Esses projetos são apresentados pelo Governo do Estado e pela Prefeitura de São Paulo como as principais ações públicas para aquela área, mas ao mesmo tempo eles têm sido a razão para uma série de violações de direitos humanos em curso: ações de caráter higienista que empregam violência contra usuários de droga e população em situação de rua, demolição e lacramento de imóveis, ameaças de remoção de famílias pobres que residem majoritariamente em pensões, fechamentos de hotéis sociais vinculados a ações de redução de danos  do Programa de Braços Abertos, dentre outras.

Seja na periferia geográfica, ou mesmo na “periferia do centro”, outra hipótese levantada é que a conjuntura política atual tem relação direta com a realidade descrita acima. Esta conjuntura estaria marcada pelo fortalecimento do urbanismo neoliberal, implicando em processos de privatização e cercamento de espaços, e pelo crescimento da narrativa anti- política, criminalizando movimentos sociais e desconsiderando a participação social.

Relacionado a essa conjuntura, destaca-se ainda o surgimento de ameaças de remoção a ocupações culturais, localizadas em equipamentos públicos abandonados pelo Estado que tem tido sua função social resgatada graças ao esforço de coletivos autônomos. Majoritariamente, esses espaços estão ameaçados pelo programa municipal de desestatização e/ou conflitos com o poder público, sendo que o caso mais emblemático é da Ocupação Cultural Mateus Santos, em Ermelino Matarazzo. Esta ocupação, desde maio de 2017, vem sofrendo uma série de tentativas de interdição por parte da Secretaria Municipal de Cultura e pela Prefeitura Regional. Embora a hipótese seja a de que tais ameaças estão relacionadas com uma ampla conjuntura, que também impacta os outros processos analisados, é fundamental lembrar que trata-se de outro tipo de processo de remoção, cujo impacto é de difícil mensuração. Apesar de não haver remoções de famílias, o fechamento desses espaços pode impactar comunidades inteiras, já que muitas vezes tais ocupações são a única referência cultural no território.

Eduardo Reese fala sobre remoções ao Observatório

Eduardo Reese fala sobre a importância de nos organizarmos coletivamente para enfrentar as violações massivas ao direito à moradia, questão não apenas da Argentina, mas mundial.

Reese é professor no Instituto Conurbano da Universidade Nacional de General Sarmiento em Buenos Aires, Argentina, e professor de gestão urbana e planejamento no Instituto Lincoln para Políticas de Terras.

Eduardo faz parte da rede internacional de pesquisadores articulada a partir do Seminário Internacional Remoções, Resistências e Intervenções Territoriais, promovido pelo Observatório de Remoções em São Paulo, em maio de 2017

Fim da cracolândia ou aumento da violência institucional?

por Fórum Aberto Mundaréu da Luz

Após a mega operação policial em maio de 2017 o prefeito, João Dória, afirmou que a cracolândia havia acabado. Entretanto, o acompanhamento dos fatos após esse período apontam algo bem diferente: a cracolândia – compreendida como os fluxos de pessoas que usam crack em situação de rua  – persiste, mesmo com a intensificação de operações policiais, a maioria delas violentas e desproporcionais.

Para visualizar em tela cheia clique aqui.

A segunda versão do mapa das “violações, violências e remoções na Luz”, elaborado pelo Observatório de Remoções, ilustra essa realidade. Em 2017 o número de ocorrências registradas cresce ainda mais. A cartografia organiza as violações desde 2005, com início do projeto Nova Luz. Neste mapa também é possível verificar a presença do fluxo de forma mais fragmentada, reforçando a antiga constatação de que a violência policial não resolve o problema, servindo apenas como uma cortina de fumaça, que acaba por dispersar o fluxo para outras regiões.

Outra constatação é que as ações estão cada vez mais violentas. Dados obtidos via Lei de Acesso à Informação (LAI) pelo portal Ponte mostram que, de maio até início de dezembro, foram realizadas 29 operações com utilização de bombas de gás e de efeito moral. Existe atualmente um verdadeiro clima de guerra na região, onde os principais prejudicados são, além dos usuários, os moradores, comerciantes e trabalhadores sociais e da saúde.

Somam-se às violências contra o fluxo, processos de remoção das famílias que ali residem violando os parâmetros da política urbana em vigor, já que a área alvo de remoção por parte dos governos municipal e estadual está configurada como Zona Especial de Interesse Social (ZEIS) no Plano Diretor da cidade. Este  instrumento do PD  prevê o aumento da  oferta de moradia popular e a melhoria das condições habitacionais de quem ali reside, assim como  a participação desta  população , via conselho gestor, em qualquer intervenção urbana. As propostas apresentadas pela prefeitura não dão conta dos números e diversidade das situações locais. Além disso, para  as famílias que estão removidas em função da PPP do Hospital Perola Byington, não há nenhuma proposta até o momento.  

Internacionalmente já se reconhece que a violência e a repressão não resolvem problemas como os da cracolândia, pelo contrário, as operações policiais violentas intensificam os conflitos, reforçam a  histórica desigualdade social e fragilizam as ações de cuidado. É nítida a sensação de insegurança  no território, o que inclusive é reforçado pelos dados divulgados pelo jornal O Estado de São Paulo, que  via LAI constatou: o número de roubos registrados na região quase triplicou após as operações da Polícia Militar que tiveram início no dia 21 de maio.

Portanto, o fim do tráfico de drogas, justificativa  apresentada pelos governos municipal e estadual, não está ocorrendo e, como vimos acima, muito menos a presença do fluxo. É ainda provável a existência de outros interesses por trás das incursões policiais, como o de remover a população pobre deste local para abrir espaço para investimentos imobiliários.

Acreditamos que é fundamental compreender a complexidade desse território, para assim planejarmos soluções humanas que melhore significativamente as condições urbanísticas do local ,  garantindo  boas condições para as famílias, comerciantes e pessoas em situação de rua. Nesse sentido, uma série de organizações coletivos, articulados em torno do “Fórum Aberto Mundaréu da Luz”, estão a frente de uma Audiência Pública que será realizada no dia 29 de janeiro na Defensoria Pública do Estado de São Paulo, com o objetivo de escutar aqueles que estão sofrendo cotidianamente essas violações e juntos construirmos estratégias de enfrentamento, resistência e propormos alternativas.